Na aldeia eu aprendi a SER e deixei de TER

Sempre sonhei em visitar uma aldeia indígena, e meu grande sonho ainda é conhecer os índios nativos da Amazônia. Aqueles que, por sorte, não são civilizados e não têm contato com essa sociedade consumista e capitalista em que vivemos. Mas o primeiro passo já foi dado e tive a oportunidade de ter contato com os indígenas de uma tribo do litoral sul de São Paulo, em Peruíbe.

Quem me acompanha sabe que de uns anos para cá passei a entregar minha vida ao Universo e confiar no que virá. Confesso que tenho sido muito grata pelo que tenho recebido. A vida não falha no quesito nos dar aquilo que precisamos receber, basta sabermos enxergar e usufruir da maneira correta. E mais uma vez foi o que aconteceu. Uma colega compartilhou no Facebook um evento que aconteceria no carnaval, um projeto de permacultura, bioconstrução e tradições indígenas, em Peruíbe. Mais precisamente na Aldeia Awa Porungawa Dju.

Passados todos os acontecidos até que eu sentisse que era para ir, comecei a pesquisar os ônibus que teria que pegar para chegar à Aldeia. E foi nesse ponto que as peças começaram a se juntar. Postei no evento que estava procurando uma carona saindo de São Paulo, pois iria de bus até lá e queria evitar ir sozinha até Peruíbe. Se encontrasse uma campainha que fosse, já estaria ótimo, afinal chegando lá eu nem fazia ideia de quanto teria que andar até chegar à tribo. Foi quando a Rafaela, uma menina ruiva linda que até então eu não conhecia, me chamou no inbox do Face e disse que tinha conseguido uma carona com um cara e perguntou se eu tinha interesse. Eles iriam de Kombi.

O quê? Meu coração até parou por alguns segundos. Cara, esse era meu segundo sonho: fazer uma trip de Kombi com desconhecidos. O Universo só podia estar de brincadeira comigo. Inacreditável! Já senti a sintonia na hora que a Rafa comemorou esse fato comigo. Era pra ser. A Vivência na Aldeia começava no sábado (25), às 10 horas da manhã. Saímos de Campinas na sexta-feira (24) à noite e é aí que começa nossa aventura cheia de energias positivas, encontros e reencontros.

Let´s go, Freeda

Partimos em quatro pessoas: eu, a Samanta, a Rafaela e o Luís com Z, que na verdade se chama Henrique, vulgo dono da Freeda, nossa Kombi preferida. Não nos conhecíamos, nunca havíamos nos visto ao menos uma vez e a partir do momento que a porta fechou e demos partida no motor, era como se já nos conhecêssemos há anos. Música, risadas, brincadeiras, comida, trânsito e muito amor foram os ingredientes da nossa trip até Peruíbe. No final da madrugada paramos para descansar em um posto de gasolina. Eu já estava no quinto sono quando o Henrique nos acordou dizendo que estavam montando uma feira em volta de nós. Acreditem! Acordamos e seguimos viagem.

Chegando na Aldeia

Por volta das 5:30am, chegamos em Peruíbe. Ainda estava escuro, mas o céu começava a clarear. Paramos a Freeda e andamos até a praia. Fomos recebidos com um nascer do sol maravilhoso e mágico. De um lado, o astro rei surgindo e do outro, um arco-íris trazendo cor ao nosso carnaval. Incrível! Quando o sol já estava alto, encontramos o Marquinhos da organização da Vivência que, graças aos encontros da vida, nos ajudou a desatolar a Freeda. Tentamos atravessar um trecho de areia fofa e o que já era previsto, aconteceu, atolamos. Mas com muita risada e força conseguimos tira-la dali.

Chegamos na Aldeia. Encontramos um lugar embaixo de uma árvore grande e montamos nossas barracas. Não muito tempo depois, chegaram mais duas meninas (sim, Renata, você é uma menina). Sugerimos que elas ficassem ali conosco, e assim surgiu mais uma conexão. Gessana vinha de Santa Catarina e a Renata, de São Paulo. Os índios nos receberam com muito amor e carinho. Logo de cara já fumamos o cachimbo do Pajé Guaíra. Durante a Vivência algumas famílias de outras aldeias ficaram conosco, incluindo muitas crianças.

Os índios dessa comunidade já são muito civilizados, até por estarem cercados pela civilização. A cidade está bem próxima e as crianças já frequentam escolas “normais” a partir do ensino fundamental. Então, é inevitável que sejam contaminados pelos nossos costumes. O Vitor, um indiozinho da aldeia, até me disse que adora Chiquititas. No entanto, é extremamente proibido levar bebida alcóolica para dentro da tribo, pois graças ao homem branco, que usa isso como moeda de troca, o alcoolismo se tornou comum entre os índios. Assim como o abuso do uso de drogas.

Na Aldeia não possui água encanada, então para a Vivência, a organização levou duas caixas d’água, que precisavam durar até o final. Era isso que garantia o banho de 25 pessoas mais os índios. Ou você aprende, ou aprende a economizar. O chuveiro de água gelada durou um dia. A partir daí tomávamos banho de uma torneira que saía da caixa e que alguém precisava ficar abrindo e fechando para controlar o consumo. Banho à noite só no escuro. Nós entrávamos no mar todos os dias, então precisava lavar o cabelo depois, mas só com shampoo para não desperdiçar água. O creme vinha depois, daquele jeitão.

Quanto a isso, para mim foi tranquilo. Estou acostumada com banho pior nos festivais que já fui. O banheiro foi uma novidade. Criaram duas casinhas com banheiro seco. Para quem não conhece, assim como eu não conhecia, nada mais é do que duas “privadas” sem água. E não é fossa. Todo dejeto despejado ali é reutilizado. O xixi é tratado e o cocô vira adubo. Como? Ao invés de dar descarga e liberá-lo no meio ambiente, ele fica depositado em um balde, onde você, após defecá-lo, joga serragem em cima. Isso ajuda a diminuir o odor e a iniciar o processo de compostagem. Ressaltando que cada item era feito em uma privada diferente. Xixi aqui! Cocô ali! O papel higiênico era jogado no balde das fezes, pois ajuda na compostagem.

Nossa alimentação foi toda vegetariana. Zero carne. Zero origem animal. Exceto pelo pão francês maravilhoso de todos os dias. Os alimentos eram levados todos os dias, pois a energia elétrica por lá é escassa. Duas mulheres maravilhosas cuidavam das nossas quatro refeições diárias e fazíamos fila para nos servirmos. Não senti a mínima falta da nossa comida, mas confesso que o chocolate e um suco qualquer vinham na minha mente no final. Lá só bebíamos água temperatura ambiente. Ambiente praia. Ah, e café e chá, que por sinal eram deliciosos. Pegávamos a comida e sentávamos na canga, no chão, embaixo da árvore. Sem correria, sem celular, sem televisão, apenas nós. Apenas conexões humanas.

Durante o dia fazíamos duas atividades: uma dinâmica em grupo e outra atividade manual. As dinâmicas foram incríveis, nos aproximaram dos índios e de nós mesmos. Utilizando barro, ajudamos a construir a Casa do Fogo da Aldeia. Através da bioconstrução, fizemos os bancos e o chão de barro. Com toda certeza foram momentos de muita união e satisfação. Durante toda construção, o Pajé tocava violão e cantava em Tupi Guarani. Pode parecer besteira, mas era muito emocionante. Todas as músicas são como orações para eles e todas falam de Deus e da Mãe Natureza.

Toda noite, os índios faziam uma fogueira no centro de um círculo de banquinhos improvisados com troncos de árvores. E ali jantávamos e passávamos algumas horas conversando sobre as tradições indígenas e cantando ao som do violão, que a Gessana toca como ninguém. Alegria pura e verdadeira. “Sem luz, sem energia. Sem carro, sem correria”. Vivemos tanta coisa em tão poucos dias, que eu precisaria escrever um livro para relatar cada momento e cada detalhe dessa Vivência. Só o coração e a alma irão saber e lembrar-se de tudo o que foi vivido.

No último dia cada grupo apresentou uma peça de teatro em silêncio, sem falas, contando alguma lenda indígena. E o outro grupo precisava adivinhar qual era, ou pelo menos explicar com clareza o que havia acontecido na cena. Os índios assistiram a tudo. Após as apresentações era hora de dizer até logo, pois adeus é muito tempo. Sentamos todos no centro da Casa do Fogo, de frente para o lado de fora e, nesse momento, a emoção bateu forte. Os índios andavam em círculo, nos rodeando, tocando e cantando uma canção linda que falava sobre os indígenas e a natureza. As lágrimas escorrem mais uma vez dos meus olhos agora. Não sei explicar exatamente o porquê, qual o motivo exato, só sei que a pureza, o amor, o cuidado e o respeito, realmente nos tocam.

Na hora, lembro que senti uma emoção muito forte crescer dentro de mim. Chorei não de tristeza, mas de alegria. Chorei com amor. Eu, que no primeiro dia não sabia como reagiria a tudo aquilo, não queria mais ir embora. Não lembrava mais de nada, do meu conforto, dos meus bens materiais, nada. Acho que essa emoção era meu ego se desconstruindo mais uma vez. Era meu SER falando mais alto. Estava livre de todo apego egótico e só sabia sentir o que verdadeiramente importa na vida: a essência. Sentia-me livre para ser.

Amizades e (re)encontros

A nossa intenção, viajantes da Freeda, era ficar na praia mais um dia, já que a Vivência terminava na segunda-feira de carnaval às 14 horas. Pretendíamos ficar dormindo na Kombi mesmo até terça-feira à noite, e aí, então, seguir viagem de volta à selva de pedra. Assim deixamos acontecer, sem planejar nada. E como o Universo faz tudo certinho, colocou nosso querido amigo, Andrey no nosso caminho. Ele ofereceu sua casa em Itanhaém para dormirmos e curtirmos a praia mais um tempinho. E, o grupo que era de quatro pessoas, passou a ser de sete. Sim, sete, a Gessana e a Renata ficaram conosco.

Sabe quando você encontra uma pessoa, a qual a conexão é tão grande, que parece que vocês já se conheciam há anos? Então, eu encontrei seis pessoas dessa, de uma vez. E a partir daí, eu prefiro deixar apenas nas nossas memórias tudo o que vivemos em um dia e meio de praias, picos e rolês na Freeda. A vida é mesmo foda quando quer colocar as pessoas certas, nos momentos certos, nos lugares certos. GRATIDÃO! Awete!

E… nos vemos em breve!

Quem é sua maior frequência afetiva?

Outro dia navegando pela internet, eu me deparei com um termo até então novo para mim: “frequência afetiva”. Ele fazia parte do título de um texto escrito por um rapaz que não me recordo o nome agora. No primeiro momento, eu fiz a minha interpretação e posteriormente abri o link para ver qual era a visão do autor. De acordo com ele e com outros meios de comunicação que pesquisei, o termo é usado coloquialmente para definir o intervalo em que você se encontra com outras pessoas que gosta. Existem amigos e parentes que vemos sempre e outros nem tanto. Este período de “separação” entre cada encontro é denominado “frequência afetiva”.

No entanto, a minha interpretação não é essa. Ou, melhor dizendo, não é bem essa. No decorrer das nossas vidas, o nosso ciclo de relações mais próximas muda diversas vezes. Isso é normal, pois as pessoas estão em constante evolução e mudança. É difícil encontrar alguém que esteja com o mesmo estilo de vida até hoje. As pessoas mudam. Mudam de escola, de emprego, de cidade, de país, de namorado, etc. Portanto é natural que algumas coisas também mudem ao nosso redor. E é nesse giro do nosso ciclo de relações que aprendemos, crescemos e amadurecemos. Porém, algumas pessoas mesmo em meio a muitas chegadas e partidas, escolhem ficar.

Recentemente um amigo próximo me contou que “perdeu” muitos “amigos” após optar mudar alguns hábitos. “Quando eu decidi ir menos para festas, algumas pessoas simplesmente se afastaram”, disse ele. No dia que tive essa conversa com meu amigo, eu já havia começado este texto, o que me fez ter ainda mais certeza da importância do tema. Afinal, ter muitas pessoas presentes na nossa rotina, não significa ter muitas pessoas em nossa vida. E é nesse ponto que entra a frequência afetiva. Ao contrário do que o termo realmente significa, eu penso que ele define as vibrações afetivas que cada pessoa transmite para nós.

Todos nós temos amigos que topam qualquer farra. Eles estão sempre presentes nesses momentos. Da mesma forma que temos aquela amiga que namora ou o amigo que casou. Cada um se mantém presente como pode em nossas vidas. Quando escolhemos seguir um rumo diferente do nosso ciclo de relações acabamos por nos ausentarmos de encontros que antes eram se não diários, pelo menos semanais. Os intervalos entre cada reencontro ficam cada vez mais espaçados. No entanto, quando o sentimento de amizade é verdadeiro, a frequência afetiva se mantém. É na distância que conhecemos o amor. É quando nos afastamos que enxergamos a força do querer bem.

Não é fácil manter uma amizade ou um relacionamento quando a outra pessoa não se encaixa mais nos seus programas corriqueiros. É preciso um esforço mutuo para que a relação se mantenha. A frequência afetiva que exercemos na vida de quem gostamos é o adubo principal para que a relação floresça mesmo com a falta de presença física. O quanto você gosta dessa pessoa? Você está disposto (a) a vê-la mudar de fase? Ontem, ela te oferecia muito da sua companhia. Hoje, talvez, tenha bem menos a te oferecer. E aí, você consegue sustentar uma relação onde você receba menos do que tem a dar? Essas perguntas podem parecer bobas, mas muitas pessoas respondem negativamente através de atitudes.

Poucas pessoas conseguem responder: eu te entendo! Quando a outra diz que a vida está corrida e que não anda tendo muito tempo. Ou que as coisas no trabalho andam puxadas e que o casamento está exigindo muito. O ser humano é acostumado a cobrar, cobrar e cobrar. A minoria consegue se colocar no lugar do outro. “Mas, eu sinto muito a sua falta. Você deveria ser mais presente”. Será que estamos querendo o certo? Exemplo disso são os amigos mais chegados que nos decepcionam. “Mas ele (ela) vivia em casa e agora nem lembra que eu existo”, muitos de nós já dissemos isso.

A verdade é que quem nos deseja o bem consegue nos transmitir isso a quilómetros de distância. A preocupação e o carinho não são físicos. Sabe aquela ligação inesperada de um amigo que você não vê há meses? Ela te faz bem, não faz? Mesmo acontecendo apenas de tempos em tempos. E aquele convite para o casamento que você nem imaginava que seria convidado devido a grande ausência na vida daquela amiga? Quem torce por nós vai vibrar mesmo que em silencio com nossas vitórias. Essas pessoas não vão mais te mandar mensagem ou te ligar para fofocar sobre os acontecidos do final de semana. Porém irão entrar em contato com você para saber como você está e esses contatos não precisam mais ser constantes.

Entender que cada pessoa possui seu tempo, sua vida e seus ciclos de relações mais próximas é necessário. Respeitar a nova escolha do seu melhor amigo, também. Manter uma amizade baseada mais em frequências afetivas do que em presença física é difícil, mas recompensador. Ter um amigo fora do seu ciclo atual é ter um amigo verdadeiro. Afinal é muito mais simples e menos trabalhoso simplesmente deixar de lado. Se a pessoa “some”, você some também. E pronto! Aqueles que compreendem sua nova fase te chamam para programas onde você se encaixe agora. Não deixam que o tempo engula a sintonia que existe entre vocês.

A frequência afetiva mantém vivo o sentimento. Quando alguém é realmente importante para nós, sentimos falta não só da presença, mas também do poder energético que essa pessoa exerce sobre nós. Muitas vezes, o contato raro com algum amigo é mais reconfortante e renovador do que os contatos diários com outros. Com o tempo entendemos que o número de vezes que vemos uma determinada pessoa no mês ou no ano não define a importância e a profundidade dessa relação. O que realmente importa não é o tempo que dedicamos a quem gostamos, mas sim a qualidade dele. Agora te pergunto: Quem é a sua maior frequência afetiva?