Desculpa, mas sou da geração que não tem medo de arriscar

“Há alguns dias chamei meu pai para conversar. O assunto, que muito me provoca euforia, a ele causou receio e espanto: ‘Pretendo me mudar para a Austrália no ano que vem'”.

Recentemente deparei-me com uma situação, a qual eu já escrevi muito sobre, mas nunca havia vivenciado realmente – não tão diretamente. No meu dia a dia, procuro incentivar as pessoas a não terem medo e a gostarem das mudanças, pois é assim que o fluxo natural das nossas vidas corre. O estático não funciona. Porém, nem sempre é fácil mudar. Às vezes, o melhor nos espera, entretanto, para alcançá-lo precisamos nos sacrificar.Correr riscos. Dizem – e eu acredito piamente – que para chegar ao “impossível” é preciso deixar muitas coisas para trás. E estar disposto a isso não é para qualquer um.

Mês passado decidi que 2017 será um ano decisivo para mim. Eu, assim como todos os jovens da minha idade, às vezes me pego em crise existencial. Poxa, já tenho 27 anos (quase) e não vejo minha vida evoluir. Não me vejo 100% independente. Parece que, ao invés de estarem cada vez mais perto, as coisas que eu almejo para mim estão cada vez mais difíceis de serem alcançadas. Meu pai com a minha idade já tinha casa, euzinha, um cachorro, carro, etc. No momento, minha única vantagem nessa comparação é que eu tenho dois dogs (que eu me desdobro para não deixar faltar nada).

Cara, a pressão que a sociedade impõe sobre nós vira e mexe consegue nos abalar, por mais que lutemos contra. A questão não é “ser rico” ou não. É não ter que depender de ninguém nessa porra. Já dependemos de tanta coisa nesse sistema sujo. Não sei o resto do mundo, mas pensar que alguém paga minhas contas me incomoda demais. É claro que nossos pais estão aqui para nos ajudar – caso viermos a precisar. Mas, meu amigo, chega uma idade, que essa “ajuda” não pode mais ser uma obrigação. É hora de voar!

Quando eu sai da casa do meu pai, em 2015, dei um voo baixo, rasante, rumo a minha independência. Amadureci. Evolui um tiquinho. Não foi um passo pequeno, muito pelo contrário, foi um passo gigante se comparado a minha situação há dois anos. No entanto, nesse momento, me sinto estagnada e tenho pavor disso. Sinto-me preparada para decolar e buscar novos ares. Tenho diversos sonhos a serem realizados. Não posso esperar que eles venham bater na minha porta, não é mesmo? Se eu não me jogar no mundão, vou ficar para sempre no “se”. E esse “se” tem o peso imenso dentro de nós.

Por fim, me deixei sonhar e planejar um futuro diferente e não tão impossível assim: “Vou largar tudo para estudar fotografia e tentar a vida na Austrália, em 2018. Sem data para voltar”. Li muito. Conversei com brasileiros que vivem lá. Pesquisei. Pesquisei mais um pouco. E decidi: é possível! Na minha cabeça, eu só precisaria ter força de vontade e determinação, que o resto aconteceria normalmente. Certo? Certo! É dessa forma que as coisas fluem. Basta querer e ter vontade. E se der errado? Cara, se der errado,“tamo aí”. Ninguém está livre da decepção e da frustração. Não acredito que as coisas fluirão às mil maravilhas, mas se não focarmos no pensamento positivo e seguirmos em direção a ele, aí que nada vai rolar, mesmo.

Tudo decidido! Chamei meu pai para conversar. Contei todos os meus planos. E, foi nesse momento, que o meu mundo ‘quase’ desabou. Me senti uma sonhadora (no sentido pejorativo). Ele, assim como grande parte dos seres humanos, prefere se agarrar aquilo que é mais seguro, que não tem chances de erros, do que ir atrás dos próprios sonhos. Nossa conversa foi uma troca de ideias, nada de “nãos” ou proibições. No entanto, ouvir meu pai falando tanta coisa distinta do que eu penso só me fez ver o quanto as pessoas têm medo.

“Maysa, você deveria prestar um concurso público. Não vai precisar trabalhar direito. Vai ficar sentada no ar-condicionado o dia inteiro. Não corre o risco de perder o emprego. Ganha bem”. Aquelas palavras foram entrando no meu ouvido e eu só conseguia sentir meu espírito livre gritando dentro de mim: NÃO, NÃO É ISSO QUE EU QUERO. Me deu desespero só de imaginar. Sabe, eu até entendo ele, de querer me dar estabilidade e segurança financeira para se sentir mais tranquilo. Quer me ver independente. E esse tiro no escuro na Austrália é um pouco incerto. Ouvi dele que se nada der certo, eu já vou ter 28 anos, muito velha para começar de novo. E existe idade para começar? Recomeçar?

Terminamos a conversa de uma forma ótima. Entretanto, todas as coisas que ele me disse, por algumas horas conseguiram me desestabilizar. Me deram medo. Pela primeira vez, eu senti medo de arriscar. Então, comecei a chorar sozinha. Chorava e não sabia por que. Pensei: “Cara, o que eu tô fazendo? Eu sempre me entreguei e confiei. Até das minhas frustrações eu tirei muita coisa boa. Se liga, Maysa. As coisas vão dar certo. Tudo vai acontecer como tem que ser”. Passado esse turbilhão de sentimentos dentro de mim, comecei a refletir. Eu havia sentido na pele, o que grande parte das pessoas sentem diariamente. E isso é apavorante.

As pessoas preferem viver uma vida que elas não amam, que não acham foda, por medo de arriscar. Trabalham por dinheiro e estabilidade financeira e não por paixão. Não sentem tesão no que fazem. E acham que almejar uma vida dessas é coisa de sonhador lunático. “Meu sonho é ser uma fotógrafa top, naipe National Geographic”, mas para as pessoas, eu viajo “nas ideias”. Cara, você já parou para pensar que a pessoa que está lá naquele lugar que você quer chegar, não nasceu ali? O ser humano, aceita “que dói menos”, ao invés de ir à luta.

Meu pai me disse que eu posso me frustrar mais uma vez indo para a Austrália. E eu respondi que mais frustrada eu seria se ficasse aqui, vivendo uma vida que não é nem de longe, a vida que eu sonho. Prefiro me frustrar em uma tentativa, do que a vida toda. Todas as pessoas que conquistaram seus objetivos precisaram arriscar, seja o que for. Não existe tentativa sem erro. E, para mim, o maior dos erros é não tentar.  Sempre escutei meus avós se lamentando de algo que não fizeram. Na última conversa que tive com minha avó, ela me disse que seu maior arrependimento é não ter cursado a universidade que tanto queria. Casou-se com meu avô e foi levar a vida que a sociedade impõe como correta. E ela, é minha maior incentivadora!

Me desculpa, mas eu nasci na geração que arrisca, e permanecer nessa vida estática que a sociedade quer, não está nem de longe nos meus planos. E você, se joga ou aceita o que é mais cômodo?

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