A felicidade não está no possuir, mas no desfrutar

“Era fim de tarde. As folhas dançavam no embalado daquela brisa gelada de outono. O céu brilhava em um misto de cores quentes, despedindo-se do astro Rei. De repente, uma borboleta cor de violeta pousa em sua mão. Era doce e leve. Porém, antes que pudesse toca-la, se foi como um sopro composto pela liberdade do agora. Voando era ainda mais bela. E foi assim, que aquela garota sentada na varanda compreendeu que a felicidade não está no possuir, e sim, no desfrutar”.

Desde que nascemos somos induzidos a acreditar que precisamos ‘ter’ para sermos realizados. Basta entrarmos na idade escolar – que está cada vez mais precoce – para que a pressão comece: “Se não estudar não vai ter dinheiro”; “Precisa tirar boas notas para ter um bom carro”; “Trate de estudar senão não terá nada no futuro”. A moeda de troca para a criança criar interesse pelos estudos é a chantagem sobre bens materiais. Sobre possuir algo: “Se passar de ano na escola, a mamãe te dá um brinquedo novo”.

Poucos são os pais – e a esses dedico meus aplausos – que ensinam seus filhos a ‘serem’ seres humanos. Há muito só se criam máquinas focadas em conquistar os melhores empregos, os melhores carros, as melhores roupas e as maiores casas. O resultado: jovens traiçoeiros, manipuladores e mimados. Buscam incessantemente a felicidade em coisas tangíveis. Acreditam que o conceito: casa, carro, família e um cachorro é a receita para uma vida feliz. E assim passam a vida toda em uma busca frustrada pela realização pessoal.

A primeira grande decepção chega logo na adolescência, com o primeiro ‘pé na bunda’ ou um amor não correspondido. Dói na alma. “Como assim o/a fulaninho (a) não me quer? Eu o/a amo demais. Ele (a) não pode fazer isso comigo”. Em qual momento da história humana foi nos dada a posse de algo ou alguém? O que nós sentimos e o que criamos dentro de nós é nossa responsabilidade e não do outro. Por isso devemos cuidar com amor e dedicação do nosso interior, pois isso ninguém jamais poderá tirar de nós.

O ser humano tem a falsa ideia de que possui coisas e pessoas. E é essa ilusão de possuir que traz tanta dor e sofrimento. Todos os dias, vejo homens e mulheres chorando pelos cantos, lamentando terem perdido a/o namorada (o). Um casamento que não deu certo soa como o fim da linha para alguns. A verdade é que sofremos imensamente pelas perdas. Porém, não se perde aquilo que nunca se teve. Concorda? Não é possível deixar de ter algo que nunca se possuiu.

Eu, no baixo dos meus 26 anos, apegada a momentos e pessoas que sou, aprendo diariamente a desapegar da forma correta daquilo que meu ego insiste em dizer que é meu. Nossa vida é composta por instantes, alguns mais longos, outros passageiros. Recentemente vivi quatro dias intensos com pessoas que até então não conhecia. E, como sempre, eu não queria que aquilo terminasse. Estava tão feliz, mas deixei a tristeza invadir meu peito só por causa da ansiedade de saber que iria acabar. Eu não queria perder aquele momento.

Então, entrando no mar, uma amiga me disse: “Você precisa aceitar que o que vivemos foi maravilhoso, mas acaba aqui. E a partir de agora novas coisas virão. Novas pessoas. Novos momentos tão bons como esse”. Cara, é isso. O segredo da felicidade não está em ter algo, mas sim em desfrutar disso. Os momentos são únicos, o que passou, se foi e não volta. O mais valioso da vida é o agora. A ansiedade advinda do medo de perder nos impede de vivermos intensamente aquilo que nos foi dado – ou emprestado, como costumo chamar.

Quando entendemos que as pessoas não são nossa posse, assim como fomos ensinados sobre os bens materiais, então aprendemos a lidar melhor com os finais. Cara, não é por que seu relacionamento acabou, que isso significa que ele não deu certo. Deu, sim e deu por muito tempo. No entanto, as pessoas são livres. Ninguém está preso a ninguém. Aproveitem enquanto essa união está trazendo felicidade para ambos. E se amanhã um dos dois sentir a necessidade de voar por outros ares, deixe ir. O fluxo da vida corre assim. Pássaro preso não canta, lamenta.

A verdadeira felicidade está dentro de nós. Se você busca sua paz e alegria exteriormente, então você será para sempre frustrado. As pessoas com quem nos relacionamos não podem ser responsáveis pelo nosso bem estar. Elas devem somar no que já é completo. A partir do momento que nos sentimos despedaçados pela ‘perda’ de alguém, é sinal de que algo não vai bem dentro de nós. As pessoas são egoístas, precisam do outro para se sentirem completas e não por que amam simplesmente. As relações humanas deixaram de ser sinceras e passaram a ser um jogo de interesse.

O ser humano passou a se relacionar com o outro não por que ama, mas por que precisa de estabilidade. A sociedade cobra pelo casamento. E devido a isso muitas pessoas entram em relações falidas na ilusão do comercial de margarinas. E aí, quando o outro decide partir, o ego leva uma surra e não se conforma: “Por que ele (a) fez isso comigo? Eu não merecia. Estou sofrendo. Ele (a) acabou com a minha vida”. Eu, eu, eu, eu, eu, eu. Como se a outra pessoa não tivesse o direito de voar. Criamos na nossa mente a falsa ideia de possuir alguém. Então, a vida nos mostra que nada é nosso e isso machuca o ego.

Portanto, a partir de hoje, comece a ver os momentos e as pessoas como instantes. Entenda que tudo nos é emprestado pelo Universo. Cada ser que cruza nosso caminho o faz por algum motivo. E o nosso querer, meu amigo, infelizmente nem sempre é o melhor para nós e para o outro. Se entregue. Sinta e desfrute de tudo o que ama e que te faz feliz. E quando precisar partir, deixe ir. Já não te pertence mais. Foi seu por um instante. Pelo tempo que tinha que ser. E foi maravilhoso, não foi? Tudo o que tentamos segurar acaba por nos machucar. A liberdade é a fonte da vida.

“A mão em que a borboleta pousou e lhe permitiu a liberdade, poderia ter sido a sua sentença de morte, caso a tivesse prendido”.

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